SECRETARIADO DIOCESANO DA PASTORAL FAMILIAR

DIOCESE DO PORTO

SECRETARIADO DIOCESANO DA PASTORAL FAMILIAR

DIOCESE DO PORTO

InícioOrganizaçãoPlano de AcçãoActividadesDia DiocesanoJornada DiocesanaMovimentosHistórico
 

                     

LIBERDADE – IGUALDADE – FRATERNIDADE

(Tópicos de reflexão quaresmal)


 

Quando esta trilogia se consolidou no século XIX, marcou idealmente uma nova idade, esta em que estamos desde o Liberalismo e a República. Na Europa latina, as revoluções fizeram-se contra tronos que se escoravam em altares. Tinha-se constituído desde a Idade Média uma teologia política em que, não só os príncipes, mas também a ordem social estabelecida, eram religiosamente legitimados. Não admira, por isso, que a oposição ao Antigo Regime se alargasse ao clero e à religião que o “justificavam” e com que ele se justificava a si mesmo.

 

Como sabemos, a identificação catolicismo – Antigo Regime é muito relativa na ideia geral e na especificidade de cada circunstância. Na ideia, porque, sendo certo que a Idade Média considerava ministerialmente o poder régio – num misto de Antigo Testamento e dalgum agostinismo (de Santo Agostinho): a cidade terrestre em função da celeste -, isso esteve longe de ser unívoco, concretamente nas tensões sacerdócio-império: - A quem pertencia a primazia prática e doutrinária, aos papas ou aos imperadores carolíngios e alemães? Com vicissitudes várias e até ao advento dos Estados modernos e das monarquias absolutas – por mais fidelíssimas, católicas, cristianíssimas ou apostólicas que se chamassem – a ideologia trono - altar foi contestada quer por surtos “apocalípticos”, que relativizavam qualquer temporalidade que fosse, quer pelo humanismo evangélico, que não esquecia a distinção entre Deus e César, estabelecida teórica e praticamente pelo próprio Cristo.

 

Não faltou por isso, dentro do próprio liberalismo - republicanismo, quem lembrasse a inspiração cristã da liberdade individual e política. E a corrente específica do “liberalismo católico” lembrou-o insistentemente. Oiçamos alguns autores dessa corrente, todos católicos declarados e comprometidos, um francês e outro português: “Há que repetir sempre as palavras escritas, há vinte anos, por aquele que se tornou no mais ilustre dos nossos bispos [Dupanloup] […]: ‘Nós aceitamos e invocamos os princípios e as liberdades proclamadas em 89 … Fizestes a revolução de 1789 sem nós e contra nós, mas para nós, assim o querendo Deus apesar de vós’. […] Não, a liberdade de consciência não tem de modo nenhum origem anti-cristã; pelo contrário, tem a mesma origem do cristianismo e da Igreja, foi criada e posta no mundo no mesmo dia em que o primeiro papa, São Pedro, respondeu ao primeiro dos perseguidores: Non possumus” (Charles de Montalembert, A Igreja livre no Estado livre, Paris, 1863). “[Com o Cristianismo nasce] a igualdade dos homens sem diferença de nacionalidade, de sangue, nem de sexo, a liberdade para todos sem distinção de cidadãos nem de escravos, a fraternidade humana como raiz de um mundo novo” (D. António da Costa, O Cristianismo e o progresso, Lisboa, 1868, p. 10).

 

Subsistindo, aliás, alguns problemas complexos, uma vez que a sociedade contemporânea ganhou tal consistência e validade secular que pôde resvalar para o secularismo, negador de qualquer conveniência pública da religião. Foi até difícil, mesmo para o catolicismo liberal, resolver o dilema assim colocado: - Se Deus criador define previamente o bem e o mal, como pode a liberdade humana escolher legitimamente entre um e outro? – Se a verdade das coisas e das vidas está eternamente definida por Deus, como pode a liberdade humana dispensar tal definição? Como sabemos, quer teológica quer politicamente, estas questões só encontraram solução cabal no Vaticano II, ao estabelecer a liberdade religiosa, não em detrimento da verdade objectiva, divinamente tutelada, mas na pessoa humana, como dinamismo pessoal para a verdade, que só livremente se pode aceitar e cumprir: “[Os homens] têm obrigação de aderir à verdade conhecida e de ordenar toda a sua vida segundo as exigências da verdade. Todavia, os homens não podem satisfazer esta obrigação de modo adequado à sua natureza, se não gozarem de liberdade psicológica e ao mesmo tempo de imunidade de coacção externa” (Declaração Dignitatis Humanae, nº 2).

 

E nisto o Concílio recuperou muito bem a própria atitude de Cristo, cuja verdade suscita a resposta livre e consequente daqueles que interpela. Resposta que os realizará (= libertará) plenamente, isto é, relacionalmente. Como lhe ouvimos em Jo 8, 31 ss: “Dizia então Jesus aos judeus que n’Ele tinham acreditado: ‘Se permanecerdes na minha palavra, sereis verdadeiramente meus discípulos, conhecereis a verdade e a verdade libertar-vos-á […]: todo aquele que comete o pecado é escravo do pecado. […] Portanto, se o Filho vos libertar, sereis realmente livres”. É óbvio que a liberdade ganha aqui um sentido muito mais profundo e (inter)pessoal. A comunidade cristã onde este trecho surgiu sentia em cada um dos seus membros a libertação que a palavra de Cristo – e Cristo palavra –, devidamente acolhida, originava de facto, superando toda a divisão com Deus e com os outros. E assim evoluímos, dos limites externos da liberdade, próprios dos sistemas jurídicos que aliás a garantam, para a ultrapassagem dos seus limites internos, própria da graça divina, como Paulo o descobriu e anunciou. “Agora, porém, livres do pecado e feitos servos de Deus, tendes por fruto a santificação e por fim a vida eterna. Porque o salário do pecado é a morte, ao passo que o dom gratuito de Deus é a vida eterna em Nosso Senhor Jesus Cristo” (Rm 6, 22-23).

 

Este dinamismo de adesão à verdade e libertação nela mesma, como a encontramos em Cristo, teve grande expressão espiritual e prática em figuras maiores do cristianismo de qualquer tempo, continuando a ser, para cada um de nós, um verdadeiro desafio quaresmal. Oiçamos, por exemplo, Inácio de Antioquia e Newman: A caminho de Roma, para ser lançado às feras, no princípio do século II, Inácio escreve aos cristãos daquela cidade, dissuadindo-os de intercederem por ele: “Perdoai-me: sei o que me convém; começo agora a ser discípulo. Coisa alguma visível e invisível me impeça que encontre a Jesus Cristo. […] A Ele é que eu procuro, que morreu por nós; quero Aquele que ressuscitou por nossa causa. Aguarda-me o meu nascimento. […] Permiti que receba luz pura: quando lá chegar serei homem. Permiti que seja imitador do sofrimento do meu Deus. Se alguém o possui dentro de si, há de saber o que quero e se compadecerá de mim, porque conhece o que me impulsiona. […] Meu amor está crucificado e não há em mim fogo para amar a matéria; pelo contrário, água viva, murmurando dentro de mim, falando-me do interior: Vamos ao Pai!” (Santo Inácio de Antioquia, Carta aos Romanos, 5-7). E regressando da Sicília, a 16 de Junho de 1833, arduamente rendido à vontade de Deus, para renovar a Igreja de Inglaterra, John Henry Newman escreveria: “Luz terna, suave, no meio da noite, / Leva-me mais longe… Não tenho aqui morada permanente: / Leva-me mais longe…/ […] Se Tu me dás a mão, não terei medo, / Meus passos serão firmes no andar. / Luz terna, suave, leva-me mais longe: / Basta-me um passo para a Ti chegar” (cf. Liturgia das Horas, Tempo Comum, Hino de Completas).

 

Manuel Clemente

Sé do Porto, 11 de Março de 2010

 

Secretariado Diocesano da Pastoral Familiar - Diocese do Porto

Rua Arcediago Van Zeller, 50     4050 - 621 PORTO

pastoralfamiliar@diocese-porto.pt