SECRETARIADO DIOCESANO DA PASTORAL FAMILIAR

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A FAMÍLIA: (NOVOS) PROBLEMAS, NOVOS DESAFIOS PASTORAIS

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"A família é o terreno mais disputado entre a tradição e a modernidade. As actuais circunstâncias da vida transformaram profundamente as relações familiares, envolvendo a própria concepção da família. O conceito de família está profundamente alterado e a sua desagregação real, agravada pelo desleixo, diminui fortemente a interacção entre os seus membros e a sua capacidade educativa.
Entretanto, a família deve ser o habitat natural da vida humana, na sua génese e no seu desenvolvimento, embora muitas circunstâncias dificultem o seu papel. Apelamos aos responsáveis pelos enquadramentos jurídicos, que à família dizem respeito, a que promovam o alargamento possível e a estabilidade desejável do espaço familiar. "


(Conferência Episcopal Portuguesa, Nota Pastoral "EDUCAÇÃO, direito e dever - missão nobre ao serviço de todos", nº 17, 6 de Janeiro de 2002)


 
   

 


O Conselho Pastoral da Diocese do Porto que nesta sua III Reunião Plenária se ocupa dos novos problemas da família e seus desafios pastorais, conforme deliberação do Plenário anterior, sente-se em profunda comunhão com toda a Igreja e, em particular, com a Conferência Episcopal Portuguesa, nas celebrações já realizadas e nas que se perspectivam para assinalar os 20 anos da Familiaris Consortio do Papa João Paulo 11.


1. COM MEMÓRIA AGRADECIDA

 

Este Conselho quer começar por manifestar o seu apreço e reconhecimento pelo trabalho que tantos cristãos desenvolvem, a título pessoal ou com carácter associativo, no silêncio do anonimato ou no testemunho visível de grupos e movimentos que se dedicam, de uma forma permanente e incansável, ao acolhimento, acompanhamento e formação no âmbito da família. Desde os inúmeros CPM's (Centros de Preparação para o Matrimónio) às visitas domiciliárias a doentes ou aquelas que são feitas pelos Ministros Extraordinários da Comunhão, desde associações de apoio a mães solteiras, a crianças abandonadas, a enfermos e idosos, a vítimas de violência doméstica, e demais Instituições Particulares de Solidariedade Social, aos grupos de casais que periodicamente se reúnem para reflectir, rezar e entreajudar-se na vivência cristã em casal e em família - em todas estas iniciativas, através dos diferentes compromisso dos crentes, torna-se presente a solicitude da Igreja como factor insubstituível na humanização e dignificação da realidade familiar.
Papel relevante têm assumido também as escolas católicas e os professores de EMRC nas escolas públicas e privadas, bem como todos aqueles que, nos mais variados âmbitos educativos, assumem a sua profissão como um verdadeiro testemunho crente e evangelizador no meio do mundo e das gerações jovens.
Finalmente, um reconhecimento especial ao valioso trabalho desenvolvido pelo Secretariado Diocesano de Pastoral Familiar, nomeadamente na preparação e realização do Congresso Diocesano da Família, em 1994, e em todo o dinamismo que daí adveio e que actualmente se intensifica envolvendo as equipas paroquiais e vicariais e os diversos movimentos desta área pastoral.

2. COM CORAÇÃO SOLIDÁRIO

 

 Participando das dificuldades e dos anseios dos seus contemporâneos, os membros do Conselho Pastoral Diocesano exprimem a sua preocupação e cuidado em relação às questões que se prendem com a situação das famílias na sociedade e cultura actuais, nomeadamente na nossa diocese. Sentem-se especialmente sensibilizados para os seguintes problemas e condicionalismos que, entre outros, afectam gravemente a família. Assim, sublinham-se:

  • as dolorosas consequências das famílias divididas, quer por relações matrimoniais desfeitas, quer por separações impostas por questões laborais ou outras (a nova realidade dos imigrantes, entre nós, por exemplo);

  • as tremendas implicações da realidade da toxicodependência, factor de desmembramento, desgaste humano e social, ruptura de relações e descalabro de situações económicas de um número cada vez maior de famílias; também o alcoolismo e outras dependências desestruturantes que continuam a grassar e a minar muitas famílias de forma dramática;

  • as pressões que o regime económico e a cultura de consumo impõem sobre as famílias, reduzindo cada vez mais, em quantidade e qualidade, o tempo e as condições físicas e psicológicas de encontro e diálogo entre os seus membros;

  • a tarefa educativa dos filhos, compartimentada entre a escola e os pais, muitas vezes sem pontos de diálogo e convergência, e muito influenciada por factores quase sempre alheios a fins educativos, como são os veiculados pela televisão e outros meios de comunicação, e que podem ser fortemente deformadores, não só das camadas mais jovens, como de todo o tecido familiar e social;

  • a educação sexual dos adolescentes e dos jovens cuja responsabilidade tem sido progressivamente descuidada pelos pais e que hoje outras instituições - escolas, centros de saúde, centros de planeamento familiar, ... - assumem à margem da orientação e do conhecimento dos próprios pais;

  • o abandono, a desvalorização social e as crescentes dificuldades de acompanhamento da precariedade da vida e da morte, nomeadamente nas pessoas dos mais idosos e dos portadores de doenças crónicas ou de deficiências, quer físicas, quer mentais;

  • a celeridade ou facilitação da aplicação das leis que favorecem o desmembramento da família ou privilegiam os interesses subjectivos individuais sobre o bem da comunhão familiar e sobre o bem maior da vida humana, em contraste com a morosidade e burocratização de outros processos que visam a . protecção familiar e infantil, da qual os processos de adopção são exemplo significativo;

  • a abordagem dos problemas da família que é feita muitas vezes através de acções avulsas e "directas" sobre a família quando, cada vez mais, as políticas familiares têm que estar relacionadas com outros sectores de intervenção pública - o "ambiente" familiar não se defende nem constrói apenas com prestações financeiras ou com serviços desenvolvidos directamente para as famílias, mas tem que ver com questões laborais, com a habitação, os transportes, o ambiente urbano, a reforma das mentalidades;

  • a situação da mulher que, não obstante a igualdade de direitos há muito adquirida na nossa sociedade e o contributo cada vez mais significativo que presta em todos os âmbitos sociais, é ainda a parte mais vulnerável em muitos casais, não só porque é com frequência objecto de discriminação laboral, como também por não ver reconhecido socialmente todo o trabalho que maioritariamente pesa sobre si em casa e no acompanhamento dos filhos - situação que se agrava com o alarmante número de mulheres - e crianças - vítimas de violência doméstica ou de abuso sexual.

    A nível eclesial, também são motivo de preocupação para este Conselho, alguns aspectos que não facilitam a vida e o crescimento harmonioso das famílias como verdadeiras igrejas domésticas e âmbito privilegiado de evangelização, formação humana e discernimento vocacional:

  • a dificuldade de transmissão da fé de pais para filhos, umas vezes pela falta de uma linguagem adequada, outras porque a própria vivência da fé dos pais é pouco segura ou até praticamente inexistente, dando lugar a um fenómeno novo entre nós que é a falta de uma iniciação à vida cristã no seio da família;

  • a falta de formação específica de agentes de pastoral familiar, quer na área da preparação para ser família, quer na de acompanhamento dos casais nas diferentes etapas da sua vida familiar;

  • a falta de estruturas de acolhimento e acompanhamento a nível paroquial;

  • a insuficiente formação que os noivos e os casais novos apresentam, nomeadamente neste tempo em que a formação remota no seio das próprias famílias de origem, quase não existe;

  • as situações, tantas vezes dolorosas e até humanamente injustas, e as dificuldades que, um número cada vez maior de crentes divorciados e recasados, tem que enfrentar na sua inserção eclesial e na vivência e expressão da fé e da comunhão.


    3. COM ESPERANÇA RENOVADA

 Face à situação presente, da qual os aspectos referidos são apenas alguns indicadores, sentimo-nos chamados a propor:

3.1. reafirmar e reavivar a realidade familiar como uma realidade de amor e comunhão, verdadeira Igreja doméstica onde, no amor conjugal, podemos intuir o amor de Aliança de Deus com o seu povo, no amor dos pais aos seus filhos conhecemos o amor d'Aquele que nos amou até à entrega total, no amor entre os irmãos aprendemos o amor da fraternidade e da comunhão universais;

3.2. revitalizar, criar e retomar, em cada família crente, um clima e um espaço de comunhão e de qualidade humana e relacional que permita a transmissão de valores, a transmissão da fé, a construção da personalidade e do projecto de vida de cada membro, onde as dimensões da festa e da oração sejam especialmente cuidadas, bem como uma correcta educação para a vida e para a morte;

3.3. criar, nas comunidades eclesiais, verdadeiros laços familiares que permitam que estas, pelo exemplo do amor e da compreensão e ajuda mútuas, se transformem também em modelo e estímulo para a própria vivência familiar;

3.4. fazer uma profunda e abrangente reflexão na Diocese recorrendo também a instâncias sociais e áreas do pensamento e da cultura diversificadas, dinamizada e coordenada pelo Secretariado Diocesano da Pastoral Familiar (incluindo a actualização do inquérito às famílias diocesanas) sobre a relação que existe actualmente entre a Igreja e as famílias - aquilo que as separa e aquilo que as aproxima, perguntando-nos se a Igreja estará hoje a perder as famílias no aspecto da vivência cristã;

3.5. relançar e revitalizar, em cada paróquia ou em contextos interparoquiais, equipas de pastoral familiar, que prestem especial atenção à preparação para o matrimónio reforçando e aprofundando, a partir da experiência dos CPM's, a preparação para ser casal e para ser família, contemplando um plano de formação progressiva - remota, próxima e mais imediata - e ao acompanhamento dos casais novos, bem como à reflexão de temáticas que afectam a família;

3.6. criar centros de acolhimento e aconselhamento - a nível paroquial ou interparoquial, vicarial ou diocesano, dependendo da especificidade da intervenção - capazes de orientar e encaminhar, com preparação profissional e formação ética e cristã, situações problemáticas da vida familiar, desde a educação sexual e o planeamento familiar, até ao acompanhamento de casos de risco ou de pessoas mais vulneráveis;

3.7. incentivar a criação de estruturas (e avaliar, desenvolver e apoiar as que já existem) que ajudem as famílias no acompanhamento e assistência aos seus membros mais fragilizados como podem ser, por exemplo, centros de tempos livres para crianças, adolescentes e jovens, centros de dia para idosos, visitas e apoios domiciliários;

3.8. contemplar, na Escola Diocesana de Ministérios Laicais, uma componente de formação específica de agentes de pastoral familiar;

3.9. promover uma catequese paroquial de iniciação, com qualidade e investimento de bons recursos humanos e materiais, para que atinja cada vez mais crianças, adolescentes e jovens, incluindo, nos seus programas e propostas, a formação específica para um desenvolvimento integral nas suas componentes afectivas, humanas e cristãs;

3.10. incluir, nas catequeses de adultos, temas relacionados com as problemáticas que dizem respeito à Família e envolver os pais na catequese dos filhos, quer nas reuniões de pais, quer em sessões conjuntas, quer na celebração dominical com as crianças e os jovens;

3.11. melhorar a coordenação e optimizar as actividades promovidas pelos movimentos da área pastoral da família e pelas equipas paroquiais e vicariais de pastoral familiar, entre si e com o respectivo Secretariado Diocesano, bem como entre os diversos Secretariados cujo trabalho interage directamente com a realidade familiar e nas questões que à família dizem respeito, nomeadamente os Secretariados de Catequese, do Ensino da Igreja nas Escolas, de Liturgia e da Pastoral Juvenil;

3.12. incentivar a formação dos leigos para que possam ter voz e intervir, enquanto pais e educadores, na sociedade civil, nomeadamente na escola - possibilitando uma maior complementaridade entre os agentes educativos - e na interpelação dos poderes públicos quanto a políticas familiares que previnam e impeçam a desagregação das famílias e possibilitem o seu fortalecimento _. defendendo inequivocamente a vida, valorizando e apoiando a maternidade e a paternidade (através, por exemplo, do desagravamento fiscal das famílias
com filhos ou idosos a cargo), reconhecendo e remunerando o trabalho na família (regulando e promovendo o trabalho a tempo parcial, nomeadamente das mulheres, sem perda da segurança e estabilidade de relação laboral nem desvalorização na carreira);

3.13. acolher os casais em situação de divorciados-recasados, integrando-os na vida eclesial, acompanhando-os nas suas dificuldades específicas e esclarecendo-os sobre eventuais situações susceptíveis de pedido de reconhecimento de nulidade matrimonial;

3.14. entender a pastoral litúrgica numa perspectiva de pastoral familiar - cuidando os horários das celebrações e o acolhimento dos filhos pequenos para facilitar a participação das famílias, acolhendo e cuidando o diálogo no Sacramento da Reconciliação - e entender a pastoral familiar também numa perspectiva litúrgica, através da experiência da oração em família, da celebração dos diferentes ritmos do ano litúrgico e das etapas da vida e da celebração dos Sacramentos (Baptismo, Crisma, 1as Confissões e 1as Comunhões, Matrimónios).

Nas mãos de Maria, a Mulher que, na escuta fiel e generosa da Palavra, se tornou na Mãe da Nova Família dos Filhos de Deus, queremos colocar a nossa esperança e compromisso renovados.


(In III Reunião Plenária do Conselho Pastoral Diocesano 19 de Janeiro de 2002)

 

 

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