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HOMILIA DA CELEBRAÇÃO DE CINZAS -  2014

de D.Pio Alves

                                                                       Quaresma

1. “Rasgai o vosso coração” é o apelo, aparentemente exagerado, do profeta Joel, que ouvimos na primeira leitura (2, 12-18). Não se trata de um gesto suicida. Bem pelo contrário, é premissa para a verdadeira realização pessoal. Rasgar o coração, romper as muralhas do egoísmo, é abrir as portas a Deus, senhor e pai, para que, com Ele, entre na nossa vida toda a criação, entrem todos os Seus filhos.

Este programa, este projeto, pela sua decisiva importância, deve ser retomado uma e outra vez. Temos que saber descobrir no normal ritmo diário da vida, na continuidade do ano litúrgico, um convite a começar de novo essa
tarefa que nunca está terminada; uma tarefa que, pelo peso das nossas fragilidades, deixamos cair reiteradamente. A quaresma, que hoje iniciamos, é uma dessas oportunidades, que não podemos desaproveitar. “Rasgai o vosso
coração”, isto é, com palavras do Papa Francisco na sua Mensagem para este tempo litúrgico, percorramos “o caminho pessoal e comunitário da conversão”.

Não é outro o sentido da cerimónia da imposição das cinzas que viveremos dentro de momentos. Vai-nos ser recordado que somos pó da terra e que à terra havemos de voltar; seremos convidados ao arrependimento e a acreditar no Evangelho. A assunção da nossa condição de criaturas não põe em causa a nossa dignidade. Pelo contrário, afirmamo-la sempre que retomamos o projeto de Deus e dirigimos para Ele os nossos passos. Reconhecer o erro de uma escolha e abrir-se à Boa Nova de Deus em Jesus Cristo é redescobrir o nosso lugar no mundo e nos desígnios de Deus e reencontrar o sentido da nossa existência.

2. “Este é o tempo favorável, este é o dia da salvação”, recorda-nos S. Paulo na segunda leitura (2Cor 5, 20-6, 2). A verdade desta afirmação, que é de agora e é de sempre, consolida a decisão de regresso à casa paterna na certeza de que, como nos diz Joel, Deus “é clemente e compassivo, paciente e misericordioso, pronto a desistir dos castigos que promete. Quem sabe se Ele não vai reconsiderar e desistir deles, deixando atrás de si uma bênção (…)?”
Diz-nos a experiência da relação com Deus que a Sua bondade paterna não é uma interrogação, mas uma certeza que ultrapassa sempre todas as nossas melhores expetativas e discursos interiores.

Jesus Cristo, no texto do Evangelho (Mt 6, 1-6. 16-18), desenha-nos o quadro do nosso modo verdadeiro de estar com Deus, connosco próprios e com o próximo. Um quadro que é de qualquer tempo, mas que a Igreja aplica de modo
especial ao tempo da quaresma: a oração, o jejum, a esmola. A simplicidade, a verdade, o segredo de Deus marcam todos esses cenários. O espetáculo, a ostentação, a consideração alheia minam o mérito de qualquer um desses gestos.

3. O Santo Padre, o Papa Francisco, na sua Mensagem para esta quaresma, propõe-nos a interiorização (e a exteriorização) da afirmação de S. Paulo (cf 2Cor 8, 9) Deus “fez-se pobre para nos enriquecer com a Sua pobreza”.
“Cristo, o Filho eterno de Deus, igual ao Pai em poder e glória, fez-Se pobre; desceu ao nosso meio, aproximou-Se de cada um de nós; despojou-Se, «esvaziou-Se», para Se tornar em tudo semelhante a nós (cf. Fil 2, 7; Heb 4, 15)”.

Este caminho da pobreza de Deus marca a nossa identidade e o itinerário da nossa relação com Deus e com o próximo. Esvaziar-se, assumir realmente a nossa condição de criaturas, liberta-nos para a relação com Deus, descobre-nos o próximo, sempre igual a nós em dignidade. “Deus não fez cair do alto a salvação sobre nós, como a esmola de quem dá parte do próprio supérfluo com piedade filantrópica. Não é assim o amor de Cristo! (…) Em que consiste então esta pobreza com a qual Jesus nos liberta e torna ricos? É precisamente o seu modo de nos amar, o seu aproximar-Se de nós como fez o Bom Samaritano com o homem abandonado meio morto na berma da estrada (cf. Lc 10, 25-37). Aquilo que nos dá verdadeira liberdade, verdadeira salvação e verdadeira felicidade é o seu amor de compaixão, de ternura e de partilha”.
O amor ao próximo se não é verdadeiramente humano é qualquer coisa, mais ou menos instrumental, mas não é amor.

“A riqueza de Deus não pode passar através da nossa riqueza”, sublinha o Santo Padre. Despojados de nós próprios, cidadãos do mundo de Deus, seremos, a sério, cidadãos do nosso mundo, concidadãos dos nossos contemporâneos. Não somos chamados a ser generosos benfeitores, repartidores do supérfluo. “À imitação do nosso Mestre, recorda o Papa Francisco, nós, cristãos, somos chamados a ver as misérias dos irmãos, a tocá-las, a ocupar-nos delas e a
trabalhar concretamente para as aliviar”.

Recorda a “miséria moral, que consiste em tornar-se escravo do vício e do pecado”; “a miséria espiritual, que nos atinge quando nos afastamos de Deus e recusamos o seu amor”. E, em primeiro lugar, “a miséria material: é a que habitualmente designamos por pobreza e atinge todos aqueles que vivem numa condição indigna da pessoa humana: privados dos direitos fundamentais e dos bens de primeira necessidade como o alimento, a água, as condições higiénicas, o trabalho, a possibilidade de progresso e de crescimento cultural. Perante esta miséria, a Igreja oferece o seu serviço, a sua diakonia, para ir ao encontro das necessidades e curar estas chagas que deturpam o rosto da humanidade. Nos pobres e nos últimos, vemos o rosto de Cristo; amando e ajudando os pobres, amamos e servimos Cristo. O nosso
compromisso orienta-se também para fazer com que cessem no mundo as violações da dignidade humana, as discriminações e os abusos, que, em muitos casos, estão na origem da miséria. Quando o poder, o luxo e o dinheiro se
tornam ídolos, acabam por se antepor à exigência duma distribuição equitativa das riquezas. Portanto, é necessário que as consciências se convertam à justiça, à igualdade, à sobriedade e à partilha”.

Esta verificação e este convite não nos falam apenas de mundos distantes. Se estivermos despertos para Deus, descobrimos facilmente na nossa rua, no nosso bairro, na nossa paróquia, na nossa cidade, na nossa diocese, famintos
de atenção, famintos de dignidade, famintos de pão. Continuarão a ser estes os primeiros destinatários dos frutos da nossa partilha quaresmal. Recolhida no Fundo Social Diocesano, continuaremos a procurar responder às necessidades materiais mais prementes, identificadas, principalmente, pelas Conferências de S. Vicente de Paulo. Desde a quaresma de 2013 até agora o Fundo Diocesano distribuiu €210.850,00.

“Rasgai o vosso coração” ao amor de Deus: nele caberão todos os nossos
irmãos.

Catedral, 05 de março de 2014

+Pio Alves, Administrador Apostólico

 

 

 

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