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DOMINGO DE RAMOS NA PAIXÃO DO SENHOR


 

Tudo o que a Igreja tem para oferecer ao mundo é o que Deus lhe oferece a ela, em Cristo e ao modo de Cristo



 

Amados irmãos


 

Tudo o que a Igreja tem para oferecer ao mundo nas actuais circunstâncias – pessoais, sociais, eclesiais mesmo – é o que Deus lhe oferece a ela, em Cristo e unicamente ao modo de Cristo. Muitos olharão noutra direcção, ou já em direcção nenhuma, por desilusão e cansaço. Por nós e por eles – por nós e para eles – fixamo-nos agora na Paixão do Senhor, abrindo uma semana maior do que as nossas vidas, pois é tempo de Deus e hora de Jesus. Não é privilégio, é graça e encargo.

Ouvimos o relato evangélico e a altura seria mais para um grande silêncio, que o assimilasse inteiramente. Deixai-me sugerir-vos que nos próximos dias tenhais tempo para isso, que é o mais importante e inadiável.

A Semana será “santa” se realmente for de Deus. Haverá certamente ocasião para encontros familiares e festivos, especialmente no Domingo de Páscoa e na sua oitava. Mas, para um cristão, a festa é Deus quem a faz e só pode ser pascal, isto é, acompanhando Cristo na sua passagem para o Pai, levando-nos a todos consigo, se realmente quisermos receber a força renovadora do seu Espírito.

Para tal nos dispõem os trechos da Palavra de Deus, os exercícios de oração, penitência e caridade que não poderiam faltar nestes dias, ultimando a Quaresma feita. – Que bom será, se ainda hoje e em vossas casas, retomardes o relato da Paixão agora escutado, relendo-o e fixando-vos nalgum passo mais certeiro, para o momento actual das vossas vidas! E isto para que, de duas das hipóteses adiantadas por Jesus ao explicar a parábola do semeador, convosco aconteça magnificamente a segunda: “… Aquele que recebeu a semente entre os espinhos, é o que ouve a palavra, mas os cuidados deste mundo e a sedução da riqueza sufocam a palavra que, por isso, não produz fruto. E aquele que recebeu a semente em boa terra é o que ouve a palavra e a compreende: esse dá fruto e produz ora cem, ora sessenta, ora trinta” (Mt 13, 22-23).

Reparastes que, no primeiro caso, os cuidados do mundo e a sedução da riqueza sufocaram a palavra mal escutada. Assim sucedeu com tantos dos primeiros ouvintes de Jesus: um pouco de atenção, algum interesse mesmo, logo seguidos por muitas distracções e imediatismos vários. O drama prossegue nas nossas vidas sempre que, momentaneamente entusiasmados com o Evangelho, acabamos como aquele jovem rico que “se retirou contristado, porque possuía muitos bens” (Mt 19, 22).

E não nos excluamos do caso, por eventualmente não dispormos de “muitos bens”. É que dispor deles e possuí-los ciosamente, não começa no ter mas no desejar e ser roído pela ambição, que não deixa espaço para mais nada. É por isso tão difícil alcançar um coração livre, unindo liberdade e verdade, que aos discípulos que a seguir lhe perguntaram: “ - Então, quem pode salvar-se?", Jesus respondeu olhando-os bem: “Aos homens é impossível, mas a Deus tudo é possível” (Mt 19, 25-26).

Deixai-me então pedir a Deus, amados irmãos em início de Semana Santa, pedir por vós e por mim, jovens ou menos jovens, com inteira disponibilidade de coração e as palavras inspiradas do Salmo 119 (118), 9 ss: “Como há-de o jovem manter puro o seu caminho? / Guardando as vossas palavras. / […] Conservo a vossa palavra dentro do coração, / para não pecar contra Vós. / […] Hei-de meditar nos vossos preceitos / e olhar para os vossos caminhos. / Em vossos decretos ponho as minhas delícias, / não hei-de esquecer a vossa palavra”.

Com tal disponibilidade concretizada, mormente nestes dias de conversão e graça, Deus identificar-nos-á com Cristo e a Páscoa será finalmente a nossa vida; como já tarda, por nós e por tantos...

 

Fixemo-nos num só versículo dos muitos escutados: “Jesus respondeu: ‘Ide à cidade, a casa de tal pessoa, e dizei-lhe: ‘O Mestre manda dizer: O meu tempo está próximo. É em tua casa que eu quero celebrar a Páscoa com os meus discípulos’” (Mt 26, 18).

Jesus aproximava-se da cidade, primeira e última cidade, Jerusalém de sempre e qualquer lugar, como seja o nosso Porto actual. E não é pouco considerá-lo, tantas são as problemáticas e contradições em que vivemos e muitos intensamente sofrem, material, social e espiritualmente falando, sem enxergar sequer como sair delas.

Deixai-me pedir-vos, amados irmãos e irmãs, deixai-me pedir-vos, precisamente aqui e agora, que sintais como vossas todas as circunstâncias concretas da nossa cidadania comum, das nossas vizinhanças possíveis, das nossas famílias e dos que a não tenham. E que sobretudo sintais como, neste início de Semana Santa, o próprio Jesus, na ressurreição que o faz omnipresente, quer entrar na cidade e em todas as nossas convivências feitas ou a refazer. E tal acontecerá decerto, se Ele encontrar nos seus autênticos discípulos – que todos aqui queremos ser – a figuração actual da sua própria caridade.

- E como será isto, como se figurará em cada um de nós a solicitude de Cristo pela cidade? Aceitando, pura e simplesmente, o que vem a seguir, na ordem que também dá, no convite que igualmente faz: “É em tua casa que eu quero celebrar a Páscoa!”.


 

Da “casa” falam muitas vezes as Escrituras, e além do sentido material. É a nossa habitação, mas sobretudo a que nós podemos e devemos ser, para Deus e os outros, no espaço alargado dos nossos corações.

Para Cristo estar e actuar na cidade, tem de habitar antes de mais na casa dos seus discípulos e familiares, como outrora esteve na casa de Pedro em Cafarnaum, aí mesmo pregando e salvando. Narra-o São Marcos em descrição corrente e sugestiva: “Saindo da sinagoga, foram para casa de Simão e André, com Tiago e João. A sogra de Simão estava de cama com febre e logo lhe falaram dela. Aproximando-se, Jesus tomou-a pela mão e levantou-a. A febre deixou-a e ela começou a servi-los. À noitinha, depois do sol-pôr, trouxeram-lhe todos os enfermos…” (Mc 1, 29 ss).

Estamos certamente convencidos da urgência duma “nova evangelização”, que salve as nossas cidades hoje em dia. Pois bem, amados irmãos, aí está ela esboçada, na Cafarnaum a refazer. Haverá templos, certamente, como era a sinagoga onde Jesus também esteve. Mas urgem casas e famílias – de sangue ou de espírito - que cordialmente O acolham e onde possa, através dos discípulos que formam com Ele “um só corpo” (cf. 1 Cor 12, 13), curar e salvar os corações e as vidas, nas respostas mais concretas de satisfação solidária.

Famílias que acolham a Cristo – Palavra, sacramento e vida – com o mesmo alvoroço de alma que lemos num notável trecho evangélico: “Quando chegou àquele local, Jesus levantou os olhos e disse-lhe: ‘Zaqueu, desce depressa, pois hoje tenho de ficar em tua casa’. Ele desceu imediatamente e acolheu Jesus, cheio de alegria” (Lc 19, 5-6). E o resultado também foi transcrito, três versículos adiante, na exclamação de Jesus: “ - Hoje veio a salvação a esta casa!”.

Nas actuais circunstâncias da sociedade portuguesa, também Jesus quer “celebrar a Páscoa em nossa casa”. E as concretizações são necessárias e urgentes.

Em relação a todos nós, herdeiros do Evangelho há tantos séculos, significa recebê-lo e praticá-lo ainda mais, em caridade activa, solidariedade reforçada e disponibilidade permanente. E ainda além da confessionalidade estrita, porque o mesmo Evangelho é património comum do povo inteiro e a oferta de Jesus não tem fronteiras, revelando-se especialmente fecunda em tempos críticos, quando outras referências já não bastam.

Para nós, os crentes, a proposta de Jesus terá mais premência. “Celebrar a Páscoa em nossa casa” exige continuá-la em toda a vida, transformando-a em convivência aberta e inclusiva, da família à vizinhança praticada e alargada, mais e mais. E, assim mesmo, com os três “elementos constitutivos que formam a essência da caridade cristã eclesial”, tão bem indicados na primeira encíclica de Bento XVI: caridade como “resposta àquilo que, numa determinada situação, constitui a necessidade imediata”; caridade “independente de partidos e ideologias”, porque, antecedendo-os e ultrapassando-os no que lhes é específico, é “actualização, aqui e agora daquele amor de que o ser humano sempre tem necessidade”; caridade, finalmente, que “não deve ser um meio em função daquilo que hoje é indicado como proselitismo”, pois “o amor é gratuito; não é realizado para alcançar outros fins” (Deus caritas est, 31). Caridade imediata, independente e gratuita: assim se abeira Cristo de nós e em nós se quer abeirar dos outros, nesta Páscoa oferecida a todos!

Deixai-me concluir pedindo o que, afinal, o próprio Deus vos quer dar: - Estai muito atentos, guardai palavras e ritos, tudo quanto nesta Semana Santa vos ilustre e acrescente a presença de Jesus pascal. Ele próprio vos dirá depois o que quer fazer e onde quer chegar através de vós. E no próximo Domingo sabereis ainda melhor o que é a ressurreição de Cristo, no mundo e para o mundo, especialmente em Portugal e nesta altura!


 

+ Manuel Clemente

Sé do Porto, 17 de Abril de 2011

 

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