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CATEQUESES QUARESMAIS NA SÉ DO PORTO

2 de Abril de 2009



 

O século XIX trouxe à diocese do Porto problemas e possibilidades, como sempre acontece. Pouco a pouco, as grandes propostas pastorais tridentinas tinham-se concretizado: campanhas missionárias internas, protagonizadas por antigas e novas congregações; um seminário diocesano finalmente aberto; grande vitalidade confraternal no campo da piedade e da caridade…

Sobrevieram depois graves acontecimentos, que transtornaram a normalidade social e eclesial do Porto, como do país inteiro. Há duzentos anos o desastre da Ponte das Barcas assinalou tragicamente o que foram as Invasões Francesas. Em 1832 o desembarque de D. Pedro e a subsequente tomada da cidade reabriu o período liberal, que aqui começara em 1820. Mas, como sabemos, a década de trinta do século XIX significou a extinção das congregações religiosas (imediata das masculinas e a prazo das femininas) e um grave “cisma”, entre os que aceitavam as autoridades eclesiásticas do novo regime e os relutantes a elas.

Tudo deixou sequelas. Afastado o bispo D. João de Magalhães, logo em 1832, a sucessão episcopal legítima só foi retomada em 1840 com D. Jerónimo José da Costa Rebelo, refazendo-se, pouco a pouco, a normalidade pastoral. Releve-se a figura do bispo D. João de França Castro e Moura, nos anos sessenta, que reabriu o seminário diocesano e reivindicou quanto pôde a liberdade episcopal na nomeação dos párocos, em que o Governo queria preponderar.

Creio, porém, que estes e outros condicionalismos, em si negativos, acabaram por ocasionar a emergência duma realidade bastante nova na vida da Igreja e uma etapa inovadora na evangelização da diocese e além dela. Refiro-me ao aparecimento dum laicado reflexivo e activo, que não hesitou em tomar a primeira linha da resposta católica aos grandes reptos da sociedade e da cultura nas últimas três décadas do século XIX portuense e nacional.

A sua história – qual núcleo do “movimento católico” - tem sido narrada em sucessivos textos dedicados aos Congressos Católicos em Portugal (o 1º foi exactamente o do Porto, na viragem de 1871 para 1872), à Associação Católica do Porto, primeira de várias congéneres, ao seu jornal A Palavra e, tempos depois, aos Círculos Católicos de Operários. O congresso foi autorizado pelo bispo do Porto, D. Américo Ferreira dos Santos Silva (cardeal em 1879), que soube acompanhar tais iniciativas, ao mesmo tempo que dedicava particular atenção à formação dos futuros sacerdotes.

Para ilustrar esta nova etapa da evangelização da nossa diocese, apresentarei alguns textos de dois autores, leigos portuenses, que ainda hoje nos impressionam pela oportunidade e pela substância.


 

Primeiramente do Conde de Samodães (1828-1918) verdadeiro “chefe” do movimento católico. Com esta designação genérica se refere um conjunto de iniciativas que, sobretudo a partir de 1870, visou defender e promover a vida interna e apostólica da Igreja, quer face às grandes ingerências do Estado quer quanto à crítica ideológica de muitos descrentes.

Esta etapa nova da evangelização ofereceu-nos no Conde Samodães e vários outras figuras do laicado a inauguração dum “lugar” novo e fecundo de vida eclesial consequente. Numa sociedade já em processo de secularização e afastamento da prática e mesmo da convicção católica, tomaram parte inteira na apologética de fé e obras, assumindo-se como autênticos crentes em situações e postos que, aliás, quase só eles poderiam ocupar. Passávamos então dum mundo sacralizado, em que a religião tanto definia o poder político como a acção pastoral, para a sociedade contemporânea, em que pertenças e competências estão muito mais distribuídas.

Samodães, além da formação escolar e militar, da vida familiar e da administração dos seus bens, desempenhou vários cargos políticos (deputado, par do Reino, governador civil, ministro), e dedicou-se a uma intensa vida cultural, literária (especialmente jornalística) e assistencial (com relevo para a Misericórdia do Porto).

Em tudo se revelou propriamente “militante”, em combate pacífico e franco na defesa daquilo a que chamou “a liberdade da Igreja”, ou seja, a sua autonomia de organização e apostolado, face ao regalismo persistente dos governantes. Isto releva tanto mais quanto Samodães era francamente adepto do regime constitucional, ao contrário de outros católicos que o consideravam ilegítimo e intrinsecamente inimigo da Igreja. É interessante verificar como ele integra a sua luta político-religiosa numa sequência que remonta a outro grande liberal portuense, que também prestara a sua contribuição ao reatamento das relações entre Portugal e a Santa Sé, no demorado rescaldo das guerras civis dos anos trinta. Escreveria Samodães n’ A liberdade da Igreja em Portugal, 1880, p. 35:


 

A minha dedicação para com o episcopado é mais lata, amplia-se a todo o clero, cuja causa me comprazo em ter defendido toda a minha vida como defendido tenho a religião católica, apostólica, romana, pelo modo que tenho sabido e podido, imitando nisto e mal (por mais não poder) o Visconde de Almeida Garrett, que um dia me deu esse conselho em 1854”.


 

A importância desta militância laical, pela novidade e consistência pessoal que manifestou, foi de enorme valia para a evangelização portuguesa até à Acção Católica (1933) e aos nossos dias.

Porque, com Samodães e outros seus coevos, o apostolado ganhava, face à sociedade nova, um escol de protagonistas que a integravam totalmente e a conheciam muito bem, em termos de vida, profissão, sociedade e cultura. Transportando a consistência e o protagonismo pessoais para o âmbito eclesial interno, tiravam todas as consequências da condição baptismal, rumo a uma consideração renovada do “quem é quem” na comunidade crente, anunciando já a corresponsabilidade que hoje activamos.

Em Samodães, com quem os bispos portugueses tratavam e se aconselhavam em grande confiança, releva a urgência do estudo, do debate, da promoção competente da doutrina e da prática católicas. Precisamente no campo doutrinal e teológico, que fora quase só eclesiástico. Oiçamo-lo no Discurso em honra da Cruz, 1873, p. 33-35:


 

Houve tempo em que a teologia não precisava de ser popular. Estava esta ciência reservada para os sábios e doutores. Hoje é mister que ela se torne acessível e servindo-me dum epíteto hoje na moda, que corre de boca em boca, republicana, isto é, ao nível de todos, perfeitamente igualitária, porque iguais nos fez a Cruz, a redenção, o catolicismo. […] Aqui hoje e sempre que nos reunirmos, congregados em academia, comunicamos nossos pensamentos, transmitimos nossas ideias, comungamos no saber de todos. […] A fé, que noutras eras podia ser cega, hoje precisa de ter os olhos abertos […]. Precisamos provar praticamente aos livres pensadores que não nos esquivamos à discussão […]. É indispensável que haja academia, conferências, congressos, jornais, livros, tudo quanto seja conducente a apoiar a causa do catolicismo”.


 

Este discurso de Samodães foi proferido na Associação Católica do Porto, há 136 anos. Deus queira que estejamos realmente “perto” das ideias do autor, tão necessárias agora para a corresponsabilidade na missão, que passará necessariamente pela partilha de ideias e propósitos, da fé comum para um mundo exigente.


 

Não menos importante para esta nova etapa da evangelização entre nós é a consideração eclesiológica que já a sustentava na altura, concretamente por parte do Visconde de Azevedo (1809-1876). A sua casa era ponto de encontro e partilha de ideias entre figuras próximas e interessadas nas questões da altura, como escreveria Samodães n’ A Palavra de 2 de Janeiro de 1877: “O nobre conde de Azevedo teve muitos e verdadeiros amigos e a sua casa era um centro, onde eles se congregavam, para em agradável colóquio discutirem entre si assuntos, a que a murmuração era estranha”.

Azevedo discursou no congresso católico do Palácio de Cristal, a 1 de Janeiro de 1872. Oiçamo-lo, para ainda nos admirarmos talvez:


 

Bem sei que não falta quem tenha dito que esta nossa reunião era inútil e desnecessária por isso que os ministros sagrados do culto aí estavam todos os dias pregando dentro dos nossos templos as coisas da religião, tornando-se assim escusado o vir escutá-las aqui. É exactamente por esse dito que estas reuniões me parecem necessárias e utilíssimas: no século passado Voltaire, chefe dos incrédulos do seu tempo, para ridicularizar a religião católica chamava-lhe a religião dos Padres, e os seus discípulos desde então até hoje não se têm esquecido de lhe dar a mesma denominação; pois […] eu afirmo que é tudo pelo contrário, que a religião católica não é a religião dos Padres, mas os Padres é que são da religião católica […]; é portanto coisa evidente que, sendo a religião, a Igreja Católica, e os Padres coisas coevas na sua fundação e criação por Jesus Cristo, não são aquelas que derivam destes, mas sim estes que derivam daquelas… ” (VISCONDE DE AZEVEDO – Discurso pronunciado na Assembleia dos Oradores e Escritores Católicos. Porto, 1872, p. 6-7).


 

O que o orador quer dizer compreende-se bem na apologética da altura: a sociedade liberal desejava participação igualitária, mais do que obediência a autoridades, acusando os católicos de submissão e menoridade cultural… Mas a eclesiologia de Azevedo rebate radicalmente tal posição. Não pondo minimamente em causa o papel dos ministros sagrados, integra-os na comunidade a que pertencem com todos os fiéis, sendo estes particularmente chamados a dar testemunho lúcido da sua fé nas circunstâncias especiais que se viviam. Já estávamos, como continuamos, em tempos de grande exigência e conveniência para o apostolado laical. A tantos anos de distância, a convicção de Azevedo não se revela hoje menos necessária para a evangelização a empreender, meio a meio e sector a sector, exactamente por quem os integra, ou seja, o actual laicado, responsável, comprometido e preparado. Ainda nos seus termos:


 

Para evitar estes sarcasmos dos adversários da Igreja católica, e para mostrar-lhes que a religião católica não é a religião dos Padres, mas sim a religião de Jesus Cristo, é que se têm reunido em vários lugares do mundo católico estas assembleias de natureza puramente leiga e secular” (Ibidem, p. 7).


 

Entendamos que para Azevedo, Samodães e os seus colegas portuenses de 1872, o ministério e a necessidade dos sacerdotes eram indiscutíveis e urgentes. Não lhes faltam intervenções nesse sentido, antes, durante e depois do 1º congresso católico. Mas o que sobressai neles é a consciência clara e certeira de que, numa sociedade secular como já era a portuguesa, pelo menos em meio urbano, era necessário que o fiel católico assumisse francamente a sua condição e a declarasse onde estivesse, com saber e consequência teórica e prática. E foi esta consciência que qualificou uma nova etapa da evangelização. Aquela que queremos levar por diante.


 

Manuel Clemente

 

 

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