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SANTA MARIA MÃE DE DEUS - 1 DE JANEIRO - 11H00

CELEBRAÇÃO PRESIDIDA POR D. MANUEL CLEMENTE
NA SÉ CATEDRAL

Homilia

ANO NOVO, VIDA NOVA

Amados irmãos e irmãs, começando com Cristo e sua Mãe mais um ano que Deus nos concede:

1. Pensando já nesta celebração de Santa Maria Mãe de Deus e Dia Mundial da Paz, recordei-me dalguns versos cantados na minha catequese de infância. Permiti que os retome com simplicidade: “Ano novo, vida nova […] / Hora em Deus bem começada / Homens a levem bem até ao fim”.
Bem começada foi por Deus, no que à sua parte respeita, a hora definitiva do mundo. Ouvimos São Paulo, escrevendo aos Gálatas: “Quando chegou a plenitude dos tempos, Deus enviou o seu Filho, nascido de uma mulher e sujeito à Lei, para resgatar os que estavam sujeitos à Lei e nos tornar seus filhos adoptivos”.
Completou-se o tempo, da parte de Deus. Complete-se agora da nossa também. Temos em Cristo e no seu Espírito o que nos faltava: a filiação divina. Aceitemo-la e desdobremo-la em fraternidade humana, concreta e realizada. Grande tarefa é esta, que define activamente todo o tempo que houver, para que, assim como Maria nos deu o Filho de Deus, também a Igreja alargue na humanidade a filiação divina e a fraternidade universal. E nisto mesmo imitaremos os pastores de que nos falava o Evangelho, esses mesmos que, tendo visto Jesus com Maria e José, “começaram a contar o que lhes tinham anunciado sobre Aquele Menino”.
Tempo pleno e paz instaurada, com esta verdade inauguramos o ano, retomando a vida a partir de Deus, inesgotável Fonte de todo o bem. Na filiação divina e baptismal que o Espírito de Cristo nos oferece, experimentamos aquela paz que só se atinge em harmonia profunda com Deus e os outros, assim se repercutindo em cada um de nós. Harmonia total, transcendente, que vai muito além do quantificável, mas não dispensa nenhum compromisso concreto e solidário.
Ao Menino “deram o nome de Jesus, indicado pelo Anjo, antes de ter sido concebido no seio materno”, significando que “Deus salva” precisamente quando se faz um de nós em proximidade absoluta de vida e morte, para ser ressurreição e destino realizado, tempo completo já oferecido ao mundo.

2. É connosco agora, neste “ano da graça de Nosso Senhor Jesus Cristo” de 2009, que por Ele o é decerto e por nós o tem de ser também. Assim o propõe, com a precisão do actual contexto, o Papa Bento XVI, na sua Mensagem para este Dia Mundial da Paz, sob o título mobilizador: “Combater a pobreza, construir a paz”.
Pela análise e indicações que traz, esta
Mensagem deve ser cuidadosamente estudada e correspondida por todos os católicos e pessoas de boa vontade. A Santa Sé manifesta-se hoje qual observatório permanente do estado do mundo, juntando a informação local com a internacional, o que lhe permite análises sobremaneira avalizadas. E, tendo o conhecimento e a experiência do conjunto, abre-nos aquele horizonte geral que hoje tende a ser o mais determinante da vida das pessoas.
A globalização apresenta-se de facto como realidade iniludível e é no seu contexto que devemos analisar-nos como humanidade em devir. Mas, nesta análise, contando com a imprescindível colaboração de economistas e sociólogos, estaremos também como os pastores evocados no Evangelho de há pouco, os quais, no que viram em Belém, reconheceram aquele significado maior que anunciaram a todos. Com eles, devemos olhar agora a globalização também no seu “significado espiritual e moral” (
Mensagem, 2): divisamos um projecto divino, que nos quer como única família humana, fraterna e corresponsável. Só assim a globalização interessa e corresponde à expectativa de todos e à vontade divina.
É à mesma luz que encaramos a pobreza, fenómeno infelizmente bem concreto e quantitativamente mensurável, mas incluindo “fenómenos de marginalização, pobreza relacional, moral e espiritual” (
Mensagem, 2)., também presentes em meios abastados.
De tudo isto sabemos e devemos saber; com tudo isto sofremos e devemos sofrer, e sempre com que mais sofra. Mas juntando sentimento e conhecimento, para que o remédio seja adequado. Sigamos Bento XVI, ao considerar a pobreza mundial e as suas causas.
Antes de mais no âmbito demográfico, que certos equívocos tem trazido, alegando-se que a pobreza está associada ao crescimento da população e tomando este como factor negativo e até “justificativo” de campanhas de redução da natalidade, onde não faltam atentados à dignidade da mulher, aos direitos dos pais e à vida dos nascituros. Muito pelo contrário, verifica-se que nas últimas três décadas saíram da pobreza algumas populações que registaram “um incremento demográfico notável” (
Mensagem, 3), revelando-se o índice positivo da natalidade como potenciador de progresso.
Outro âmbito de análise é o das pandemias que atingem algumas zonas do mundo, pondo em causa os sectores produtivos e a vida em geral. O combate a tais pandemias passa certamente pela generalização de tratamentos e remédios; passa também pelos avanços da medicina e dos cuidados médicos, requerendo a disponibilidade de cientistas e produtores de fármacos; e não dispensa, em especial nalguns casos como a SIDA, a educação para uma sexualidade respeitadora da dignidade própria e alheia.
Terceiro âmbito de análise é o da incidência infantil da pobreza. Dos cuidados maternos à educação, da vacinação aos recursos médicos e ambientais, tudo devemos às crianças. Sem esquecer a promoção e a estabilidade da família, pois “quando a família se debilita, os danos recaem inevitavelmente sobre as crianças” (
Mensagem, 5).
Em quarto lugar, o Papa insiste na relação existente entre desarmamento e progresso. Mas lamentamos com ele que, pelo contrário, se verifique o triste conluio da corrida aos armamentos com o subdesenvolvimento, desviando-se recursos que deveriam promover a vida e a economia de populações inteiras.
Acrescente-se a actual crise alimentar, que não se deve tanto à insuficiência de alimentos como à dificuldade em aceder-lhes, bem como a práticas especulativas e à ineficácia das instituições politicas e económicas. Aumenta o fosso entre países ricos e pobres, porque a tecnologia evolui mais em quem mais tem e porque os produtos industriais vendem-se mais caro do que os agrícolas e as matérias primas dos países pobres.
Algumas observações ainda, de importância definitiva para ultrapassarmos a intolerável pobreza sofrida por tão grande parte da população mundial: é necessária uma globalização que atenda aos interesses de todos, em verdadeira “solidariedade global” (
Mensagem, 8); um comércio internacional onde “todos os países tenham as mesmas possibilidades de acesso ao mercado mundial” (Mensagem, 9); um mercado financeiro que sustente a longo prazo os investimentos e o desenvolvimento, até porque “uma actividade financeira confiada no breve e brevíssimo prazo torna-se perigosa para todos, inclusivamente para quem consegue beneficiar dela durante as fases de euforia financeira” (Mensagem, 10); uma cooperação internacional que invista sobretudo na formação, capacitando para a criação de rendimento (Mensagem, 11); a indispensável conjugação da responsabilidade pessoal com “positivas sinergias entre mercados, sociedade civil e Estados” (Mensagem, 12).  
Numa homilia como esta, mesmo em dia propício, não caberia uma análise sócio-económica só por si. Mas, ainda com Bento XVI, atingimos níveis de apreciação mais profundos e até religiosos. Assim, quando se requer um “código ético comum”, em que prevaleçam normas “radicadas na lei natural inscrita pelo Criador na consciência de todo o ser humano”, aí mesmo onde cada um de nós sente “o apelo a dar a própria contribuição para o bem comum e paz social”; ou insistindo na necessidade de “cada homem se sentir pessoalmente atingido pelas injustiças existentes no mundo e pelas violações dos direitos humanos ligadas com elas” (
Mensagem, 8); em suma, “a luta contra a pobreza precisa de homens e mulheres que vivam profundamente a fraternidade e sejam capazes de acompanhar pessoas, famílias e comunidades por percursos de autêntico progresso humano” (Mensagem, 13).

3. O que a Mensagem papal nos diz em termos mundiais, reforça aliás o que a Comissão Nacional Justiça e Paz – organismo da Conferência Episcopal Portuguesa para esta área – nos indicou recentemente para o nosso país (Audição Pública – Dar voz aos pobres para erradicar a pobreza. Conclusões, 8 de Novembro de 2008). Indicações que, no presente quadro socio-económico, devemos retomar com a máxima atenção e consequência. Assim se constata que “a pobreza na nossa sociedade não é uma fatalidade”, por já dispormos de recursos para a ultrapassar; mas é uma realidade e agrava-se, por injusta repartição do que se alcança; e porque, como sociedade, não conseguimos “proporcionar a todos uma igualdade de oportunidades no acesso a bens essenciais e a serviços básicos de saúde, educação, habitação ou segurança” (Conclusões, 2).
Cabendo ao Estado nos seus vários níveis “um papel determinante […] para prevenir as causas geradoras da pobreza e para minimizar as suas consequências”, compete-nos a todos, como “sociedade civil”, apoiá-lo e pressioná-lo nesse sentido, bem como “desenvolver aquelas acções de proximidade para as quais nem o mercado nem o Estado têm respostas satisfatórias” (
Conclusões, 4-5).
Assim deve ser e para isso contamos com a colaboração do Estado, reconhecendo e apoiando devidamente as iniciativas que manifestam tal atenção e entrega, protagonizadas por tantas Instituições Particulares de Solidariedade Social. Encontramos nelas o rosto mais expressivo da sensibilidade portuguesa à questão social: são 4 896 e apoiam directamente cerca de 600 000 utentes e suas famílias; cerca de 41 % são de iniciativa directa da Igreja Católica, muitas outras de inspiração cristã, algumas de outras Igrejas e outras promovidas por cidadãos e organizações civis. E o Padre Lino Maia, presidente da CNIS, que nos presta estes e outros dados em texto recente, comenta: “Muitas são genuínas manifestações do exercício de cidadania e muitas delas são fruto da caridade. Todas são um indubitável contributo para a inclusão social e para a minoração da pobreza e para a instauração de uma verdadeira fraternidade” (
Agência Ecclesia, 23 de Dezembro de 2008, p. 8).
Retomando o documento da Comissão Nacional Justiça e Paz, constataremos certamente que a erradicação da pobreza, respondendo imediatamente às necessidades concretas de tantos concidadãos nossos, é um ganho geral da sociedade no seu todo, como aproveitamento de recursos humanos, coesão social, segurança e qualidade de vida. Na verdade, “a luta pela erradicação da pobreza releva de uma opção colectiva acerca da sociedade em que desejamos viver” (
Conclusões, 10).
Uma sociedade de todos para todos, assim nos reencontraremos. Sabendo que, para a resolução dos problemas sociais, contam em primeira linha aqueles que mais directamente os sofrem: “só através de uma maior participação dos pobres na concretização das medidas e projectos que lhes são dirigidos se podem encontrar as respostas mais eficientes” (
Conclusões, 12). E não será forçada a alusão à verdade que hoje celebramos: para realizar a paz, Deus toma de Maria a nossa humanidade concreta e humilde, construindo na pobreza e com quem se faz “pobre” o Reino que finalmente nos inclui e compromete.
                
4. Como Igreja do Porto, devemos acolher profunda e consequentemente a exortação papal, neste Dia Mundial da Paz, que queremos primeiro dum ano inteiramente conforme: “a cada discípulo de Cristo bem como a toda a pessoa de boa vontade, dirijo, no início de um novo ano, um caloroso convite a alargar o coração às necessidades dos pobres e a fazer tudo o que lhe for concretamente possível para ir em seu socorro” (
Mensagem, 15).
Preparamos na Diocese, durante este ano que começa, a “Missão 2010”, para concluirmos a primeira década do século com o reforço da acção evangelizadora de todas e cada uma das nossas comunidades, que não existem para si mesmas, mas para Deus e para os outros, na caridade de Cristo. Evangelização que se define precisamente, segundo a profecia que Jesus aplicou a si mesmo, como “anúncio da Boa Nova aos pobres” (
Lc 4, 18).   
Santa Maria, Senhora nossa, nos fará participar do mesmo amor que a fez Mãe de Cristo e, n’Ele, da humanidade inteira!  
       

+ Manuel Clemente
Sé do Porto, 1 de Janeiro de 2009


 

 

 

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