| |
D. MANUEL CLEMENTE

QUARTA-FEIRA DE CINZAS, 2013
Quaresma necessária, acolhida e oferecida
Mensagem quaresmal em Quarta Feira de Cinzas de 2013
Caríssimos
irmãos a caminho da Páscoa:
1.Começamos
esta Quaresma particularmente necessitados dela,
por nós e por todos, na Igreja e na sociedade que integramos. Na
sociedade portuguesa, antes de mais, onde dificuldades persistentes como
que reduziram a cinzas muitas viabilidades que pareciam seguras e muitas
previsões que se criam certas. Com maior ou menor inadvertência nossa,
com maior ou menor inadvertência alheia, o resultado não foi o esperado
e ainda há muito a resolver no âmbito particular e público, para que os
inegáveis esforços de quem pode e deve e a notável persistência de quem
não se resigna deem o resultado pretendido. Lá chegaremos, decerto, se
formos todos a chegar, com justiça e solidariedade reforçadas.
E, no entanto, perdura o sentimento de que não se trata de algo
episódico, nem que episodicamente se resolva. Entre más notícias e
outras mais esperançosas, poderíamos cair numa relativa indiferença, que
apenas se aguentasse porque, ao fim e ao cabo, alguma entidade nos
seguraria em casos extremos, a raiar a penúria. Entretanto, quem pudesse
partiria e outros ficariam, vendo a marcha da história passar ao lado,
muito ao lado.
Não é justo este sentimento, nem faz jus a muito trabalho de quem não
cruza os braços. Mas é ainda assim um sentimento que aflora em
comentários recorrentes, na praça e nos media, qual negativismo de raiz,
que desmotiva à partida. Ora, quando falamos de realidades assim,
indicamos uma “crise” mais profunda do que meramente económica ou
política que fosse. Estamos a falar de humanidade, estamos a falar de
nós, onde mal nos sondamos e certamente sofremos.
A Quaresma é do calendário cristão e aos cristãos primeiramente
interessa e incumbe. Lembrando ao vivo os quarenta anos do Povo de Deus
no deserto, em duríssima libertação que só poucos alcançaram, lembrando
ainda mais os quarenta dias de Jesus, no deserto em que venceu todas as
tentações principais, é oportunidade maior para fazermos nossa a sua
vitória sobre quanto nos afasta de Deus, dos outros e do melhor de nós
mesmos.
Os exercícios quaresmais são a obra e o fruto duma fé verdadeira.
Oração, esmola e jejum, na designação tradicional, podem traduzir-se por
exercício espiritual de filiação autêntica, aproximação concreta das
necessidades alheias e domínio de apetites vários que nos distraem do
essencial. Conjugam-se aliás e muito bem, porque quem procura antes de
mais o reino de Deus e a sua justiça, compreende melhor o que deve aos
outros e consequentemente partilha do que tem e do que poupa.
Não precisamos de
grandes cogitações para concluir da oportunidade redobrada de Quaresmas
sérias. Os discípulos de Jesus Cristo admiram-lhe a plena liberdade
sobre si próprio, percorrendo a estreita senda que, nele mesmo, Deus
abria ao mundo. Estreita senda, que a sua Ressurreição transformou em
viabilidade garantida para quem a queira percorrer, no mesmo Espírito e
com a sua graça. Se olharmos em redor, para outras possibilidades que
porventura nos apresentem, continuaremos a responder com as palavras de
Pedro, apesar de tudo e até apesar de nós: «A quem iremos, Senhor? Tu
tens palavras de vida eterna!» (Jo
6, 68).
Irmãos caríssimos, diocesanos do Porto: Acolhamos de coração entregue as
palavras de Paulo, no trecho que ouvimos: «Como colaboradores de Deus,
nós vos exortamos a que não recebais em vão a sua graça. […] Este é o
tempo favorável, este é o dia da salvação!».
2.Porque é
de acolher que efetivamente se trata.
Aquele sentimento pesado e difuso, atrás referido, que tanto desmotiva
socialmente, pode igualmente expandir-se na vida eclesial que levamos.
Tal não deve acontecer de modo algum, porque os discípulos de Cristo hão
de ser, especialmente agora, sinais vivos de esperança certa, nos mais
diversos ambientes e setores em que a coexistência decorra. Assim o
concluímos por nós, mas sobretudo o ganhamos de Cristo e do que nos
oferece.
Leva-nos este ponto a uma consideração maior e mais exigente. Leva-nos
ao que propriamente se chama conversão e quase rendição à graça e à
justiça de Cristo, que só elas nos recriam e habilitam para o que
importa sermos, para Deus e para o mundo.
Algumas décadas de otimismo apressado tentaram-nos a considerar mais
“horizontalmente” as coisas, o que acabou por nos desencantar de nós
mesmos, como pretendeu desencantar o mundo. Tudo estaria ao nosso
alcance, dizia-se, mas nem sempre se atingiram novos patamares de
humanidade livre e solidária - e muito pelo contrário, nalguns casos
mais gritantes. De facto, temos de nos ver de mais alto para nos
abarcarmos a todos.
Ao invés de tal
horizontalismo, Jesus, de pés bem assentes na terra que foi sua,
apresentou-se inteiramente “vertical”, em si mesmo abrindo tanto a terra
ao céu como o céu à terra. Lembremos, por exemplo, como se apresentou
segundo o antigo sonho do patriarca Jacob: «Em verdade, em verdade vos
digo: vereis o Céu aberto e os anjos de Deus subindo e descendo por meio
do Filho do Homem» (Jo
1, 51).
Por meio d’ Ele, e nunca doutro modo. Os discípulos de Cristo, que
verdadeiramente o queiram ser, sabem-se resgatados dum imenso peso, que
só Ele suportou. Há cativeiros de alma que nem conseguimos esclarecer,
quanto mais quebrar… Oiçamos de novo e guardemos melhor as palavras de
Paulo: «A Cristo, que não conhecera o pecado, identificou-O Deus com o
pecado por amor de nós, para que em Cristo nos tornássemos justiça de
Deus».
Reparemos que a iniciativa é divina, desvendando-nos o próprio modo de
ser e agir de Deus. É Deus Pai que nos oferece em Cristo a reconciliação
que por nós não atingiríamos nunca, como a não conseguiríamos agora. É
essa a deslumbrante justiça de Deus, como se nos devesse o que
gratuitamente nos oferece. Adianta-se no perdão, quase substituindo o
ofensor. E tal acontece porque, em Deus, a justiça tem outra raiz, que
se chama propriamente “amor”.
O Papa Bento XVI, a
quem ficamos devedores de oito anos de luminoso pontificado, escolheu
para a sua primeira encíclica o título “Deus é amor”, plenamente
acertando com a revelação cristã. Na sua última mensagem quaresmal,
diz-nos agora, entre muitas outras coisas oportunas: «O cristão é uma
pessoa conquistada pelo amor de Cristo e, movido por este amor […], está
aberto de modo profundo e concreto ao amor do próximo. Esta atitude
nasce, antes de tudo, da consciência de sermos amados, perdoados e mesmo
servidos pelo Senhor, que Se inclina para lavar os pés dos Apóstolos e
Se oferece a Si mesmo na cruz para atrair a humanidade ao amor de Deus»
(Mensagem do Papa para a Quaresma de 2013.
Crer na caridade suscita caridade, nº 1).
Retiremos deste trecho duas consequências maiores, a nós referentes,
como Igreja de Cristo, e ainda a nós mesmos, como Igreja no mundo e para
o mundo, na nossa sociedade e circunstância:
Primeiramente, caríssimos irmãos e condiocesanos, retomemo-nos diante de
Deus como permanentes devedores dum resgate que não mereceríamos. É
surpreendente deveras que todos os que mais tentaram corresponder ao
amor de Deus – de Paulo de Tarso a Francisco de Assis ou a Teresa de
Calcutá – sentissem tanto a desproporção absoluta entre o dom de Deus e
a capacidade humana de se retribuir inteira… Por nós, não podemos nem
queremos considerar-nos outra coisa senão pobres pecadores,
constantemente carecidos do perdão de Deus. Seremos até a única
comunidade humana que, ao reunir-se, começa por se confessar pecadora,
diante de Deus e dos homens, «por pensamentos e palavras, atos e
omissões», e insistindo cada um «por minha culpa, minha culpa, minha tão
grande culpa».
Esta a verdade de que partimos nós, condição indispensável e assumida
para acolhermos a verdade maior da misericórdia divina. Juntando uma e
outra, continuamos a ser - como já antigamente se dizia - «a santa
Igreja dos pecadores». Dos pecadores que assim nos confessamos e da
santidade divina que nos é oferecida, pela mediação eclesial que Cristo
não dispensa. Como outrora mandou aos discípulos que distribuíssem o pão
com que só Ele alimentava o povo, como os mandou perpetuar a eucaristia
em sua memória, como lhes confiou o serviço do perdão e da paz… E como
nos envia todos a todos, caríssimos irmãos e irmãs, para que chegue a
cada um a vida divina que só assim se expande.
Nada sucede por
nós, mas porque em nós atua o amor divino, que só “merecemos” porque a
ele nos rendemos, sem a mínima presunção da nossa parte. E o próprio
Jesus Cristo o esclareceu na conclusiva parábola do fariseu e do
cobrador de impostos, quando foram ao templo para orar. O primeiro, mais
propriamente para afirmar a sua suposta impecabilidade, ali de pé e
gabando-se de cumprir o preceituário completo. O segundo, nem levantava
os olhos do chão e só conseguia repetir: «Ó Deus, tem piedade de mim,
que sou pecador». Sabemos a conclusão da parábola, como Cristo a tirou:
«Este último voltou justificado para casa, e o outro não. Porque todo
aquele que se exalta será humilhado, e quem se humilha será exaltado»
(cf. Lc 18,
9-14).
Mas, se a humildade
religiosa é a primeira consequência a reter, a humildade diante dos
outros é a segunda e igualmente necessária. Aquele fariseu cheio de si e
da sua suposta grandeza, no próprio orgulho com que se apresentava
diante de Deus, transportava um profundo desprezo pelos seus
semelhantes. Pois assim mesmo dizia: «Ó Deus, dou-te graças por não ser
como o resto dos homens, que são ladrões, injustos, adúlteros…». Assim
blasfemava ele, mas assim não blasfemaremos nós, atribuindo-nos uma
impecabilidade que só a Deus pertence. Como o próprio Jesus o afirmou,
para não restarem dúvidas: «Ninguém é bom senão um só: Deus» (Mc
10, 18).
Em suma, caríssimos irmãos: Acolhamos esta Quaresma como oportunidade
concreta de libertação de raiz. Por nós, não somos melhores do que
outros, mas queremos substituir qualquer auto-convencimento pela
conversão sem reservas à misericórdia divina.
3.Só assim ficaremos
aptos para servirmos a sociedade que integramos, com disponibilidade
oferecida e reforçada. Quem se sabe
recuperado pela graça de Cristo, confessa um Deus que não desiste de
nenhuma das suas criaturas e mantém constantemente a vontade criadora
que subjaz a toda a existência.
Sobretudo por isso,
estamos com todos os outros nas inevitáveis fronteiras da justiça, da
solidariedade e da paz. É ainda Bento XVI a dizer-nos: «Quando damos
espaço ao amor de Deus, tornamo-nos semelhantes a Ele, participantes da
sua própria caridade. Abrirmo-nos ao seu amor significa deixar que Ele
viva em nós e nos leve a amar com Ele, n’Ele e como Ele» (Mensagem,
nº 2).
Nas nossas comunidades cristãs, certamente, e por elas no espaço em
redor. Mas também nas escolas, nos hospitais, nas empresas, na sociedade
em geral, estaremos com todos e para todos, com as competências que
tivermos ou ganharmos, iguais entre iguais; e como “sal da terra”, que
não perde a força que Deus sempre garante, para que tudo alcance melhor
gosto e sobretudo não se corrompa e degrade.
Porque é magnífica
a declaração mas tremenda a advertência que Jesus Cristo nos faz: «Vós
sois o sal da terra. Ora, se o sal se corromper, com que se há de
salgar? Não serve para mais nada, senão para ser lançado fora e ser
pisado pelos homens» (Mt
5, 13). Lembremos a advertência, mas apliquemo-nos na declaração. E que
aqueles que connosco não desistem de resolver todas as crises, das
famílias ao Estado, da economia à sociedade, da escola à cultura, possam
confirmar que, ali mesmo onde está um discípulo de Cristo, não há
desistência prévia, não há pessimismo paralisante, não há cansaço
insuperável. - Ofereçamos esta exercitação quaresmal de crentes como
incentivo nacional de esperança!
(Ouvido o Conselho Presbiteral, continuaremos a entregar a renúncia
quaresmal que fizermos ao Fundo Social Diocesano, que a aplicará a
várias necessidades, sobretudo no campo da salvaguarda e promoção da
vida em todas as suas fases, da conceção à velhice. Desde a Quaresma de
2012 até ao presente, o Fundo Social Diocesano distribuiu 239 605 euros,
designadamente através da Sociedade de São Vicente de Paulo, a Cáritas
Diocesana, a Obra Diocesana de Promoção Social, a Associação Católica
Internacional ao Serviço da Juventude Feminina e a Vida Norte.)
+ Manuel
Clemente
Sé do
Porto, Quarta Feira de Cinzas, 13 de fevereiro de 2013
|