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D. António Francisco dos Santos
HOMILIA DA CELEBRAÇÃO DA PAIxÃO - 2014
Irmãos e Irmãs,
1.Nesta tarde de Sexta-Feira Santa tem redobrado sentido olhar para a
Cruz de Cristo.
Ao olhar para a Cruz não estamos sós. Connosco, de olhar fixo no
Crucificado, estão todos os que sofrem.
Se olharmos, também nós, o mundo a partir da Cruz de Cristo veremos que
se ampliam os sentimentos do nosso coração e se alarga o nosso campo de
visão.
Na Cruz, a Humanidade deixa de ser vítima do pecado e da morte para
iniciar a partir de Cristo e com Ele a sua própria história da salvação
fascinado pelo valor incondicional e sagrado da vida e pela certeza
inabalável da
ressurreição.
Quando a Cruz pesa sobre alguém, todos nós somos necessários e
imprescindíveis como cireneus, mesmo que a nossa ajuda pareça
insignificante perante a imensidão da dor. Assim compreendemos que Jesus
não esteve só no caminho da Cruz. Com Ele fizeram caminho também o
Cireneu, a Verónica, as mulheres de Jerusalém, o discípulo João e
sobretudo a Mãe de Jesus. A Mãe é sempre quem melhor compreende o
mistério da dor e mais alivia o peso da cruz.
O caminho do Calvário de todos os que sofrem não prescinde, também hoje,
de cireneus que partilhem a dor e que reparem a humilhação, o desprezo,
a indiferença, a injustiça, o luto e a miséria que são em todos os
tempos da história angustiantes e demolidoras experiências de sofrimento
e de cruz.
2.A narração da paixão, agora proclamada, diz-nos que no auge da
crucifixão, Jesus revela, pelas palavras que se lhes soltam do coração,
a sua doação obediente até à morte e a dimensão infinita do seu amor
pela Humanidade.
Um condenado, ali crucificado a seu lado, implorou de Jesus que se
lembrasse dele quando estivesse no seu reino. (Lc. 23, 42).
A reacção de Jesus foi acolhê-lo de imediato, sem cláusulas nem
condições: "Hoje mesmo entrarás no Paraíso" (Lc. 23, 43).
A Humanidade sempre recorreu a Deus. E sempre O procurou. Mesmo que seja
por caminhos estranhos, veredas silenciosas ou periferias ignoradas ou
desconhecidas.
E a última palavra, surpreendentemente serena e confiante, é esta: "Pai
nas tuas mãos entrego O meu Espírito" Lc 23, 46).
É a manifestação de que tudo está cumprido. A Humanidade está salva.
Está restabelecida a Aliança nova entre o Senhor e o Seu Povo, reaberto
o diálogo entre Criador e a Criação e restabelecido o amor entre Deus e
a Humanidade.
3.Nesta tarde de Sexta-Feira Santa, queremos continuar, dois mil anos
depois, a olhar o Crucificado e a rezar-Lhe:
Quando vires, Senhor, pobres na nossa cidade, gente sem pão nem abrigo,
sem mesa e sem lar nas nossas terras...
...Faz que as nossas portas se abram, as nossas mãos se
estendam e o nosso pão se reparta.
Quando encontrares, Senhor, multidões sem rumo e sem rosto, jovens sem
horizonte e sem projectos, braços sem trabalho e sem emprego...
...Faz que as nossas ruas ganhem vida com pessoas felizes, o nosso
futuro recupere encanto e a terra que pisamos nos ofereça alegria,
trabalho e esperança.
Quando sentires, Senhor, lágrimas tristes e magoadas de crianças sem
família, sem escola ou sem terra ou de idosos, irmãos gémeos da solidão,
do desânimo e do abandono...
... Faz que a vida seja defendida e respeitada, como direito sagrado e
valor eterno, as famílias cresçam em amor e em paz e os idosos e doentes
recebam em presença, afecto e respeito o que nos dão em sabedoria,
exemplo e bênção.
Quando souberes, Senhor, que há Calvários levantados em lugares de gente
abandonada e inocente, cruzes de dor erguidas em holocaustos de
sofrimento e corações rasgados em momentos de abandono...
... Faz que encontremos coragem humana, decisão crente e determinação
evangélica para percorrer caminhos com os que sofrem e partilhar as
dores dos irmãos sem ninguém.
Quando ouvires, Senhor, orações de súplica, de gratidão e cânticos de
louvor cristão em comunidades vivas de fé, de entusiasmo e de
comunhão...
... Faz que a vida, a fé, a esperança, a caridade e a missão
desta amada Igreja do Porto se centrem sempre em Ti e irradiem para o
Mundo a partir de Ti, Senhor Jesus.
Igreja Catedral do Porto, 18 de Abril de 2014
António, Bispo do Porto
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