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D. António Francisco dos Santos
Homilia de Entrada na Diocese
1. Olhar o tempo e a história com o olhar de Deus
Irmãos e Irmãs
Há dez anos fui chamado pelo Papa João Paulo II para servir a Igreja de
Braga, como seu Bispo Auxiliar, atribuindo-me a Igreja titular de
Meinedo, no território desta Igreja Portucalense. Passados dois anos, o
Santo Padre Bento XVI enviou-me à Igreja Aveirense como seu Bispo.
Agora, é o Papa Francisco que me chama a servir a Igreja do Porto.
Indiquei para dia da minha ordenação episcopal o dia 19 de Março,
confiando o meu ministério aos cuidados de S. José e desejando aprender
com ele as virtudes da simplicidade, da bondade e da disponibilidade.
Juntei a esta primeira intenção, ao escolher o dia do Pai, a evocação da
memória abençoada de meu pai, que perdera lá longe no Brasil, quando eu
tinha apenas quinze anos.
Via e vejo em S. José, que nesse dia a Igreja celebra, um homem
tranquilo, respaldado na verdade da vida e na serenidade da consciência.
Nele se unem, para mim, o recolhimento interior e a prontidão obediente
diante do inesperado desafio da missão.
O projecto de Deus vai sobrepor-se aos seus planos pessoais. O sonho de
Deus vai tomar a dianteira diante dos seus horizontes particulares. A
ideia que ele tinha feito de uma vida discreta, simples e agradável,
vivida na sua terra, é ultrapassada, porque se sente associado à
aventura de Deus entre os homens. E aí começam os caminhos novos que o
levam de Nazaré a Belém e de Belém ao Egipto, partilhando a sorte dos
que não têm casa nem pátria, dos desenraizados e dos peregrinos.
No silêncio de José serão sepultadas todas as suas dores e
interrogações. Acompanham-no apenas as responsabilidades da missão, as
alegrias de seguir a voz de Deus e as esperanças de quem crê no Senhor e
n'Ele coloca a sua confiança.
Propus-me, na hora da ordenação episcopal, envolvido pelo carinho das
gentes de Lamego, a minha Igreja-Mãe, cuja ternura materna se espelhava
no rosto sofrido da minha Mãe, a braços com grave e prolongada doença,
colocar-me nas mãos de Deus - "In manus tuas". Fiz desta decisão o meu
lema episcopal.
2. O ministério da bondade e o magistério da proximidade
Nos Evangelhos, os discípulos de Jesus aparecem como homens fortes,
corajosos, trabalhadores, mas no seu íntimo sobressai uma grande
ternura, que não é virtude dos fracos, antes pelo contrário denota
fortaleza de ânimo e capacidade de solicitude e de compaixão. Não
devemos ter medo da bondade.
Só pela bondade aprenderemos a fazer do poder um serviço, da autoridade
uma proximidade e do ministério uma paixão pela missão de anunciar a
alegria do evangelho. O evangelho é tudo o que temos e somos.
As Igrejas Diocesanas que servi, mas sobretudo ultimamente a Igreja de
Aveiro, acompanhar-me-ão sempre como bênção, de que preciso, e como
renovado incentivo ao serviço humilde, concreto, rico de fé e cheio de
alegria.
Obrigado, Igreja de
Aveiro! Obrigado Aveirenses!
A todos, nestas Igrejas Diocesanas procurei amar e servir. Sinto-me hoje
acompanhado na amizade e na oração pelos sacerdotes, diáconos,
consagrados e leigos, pelas autoridades locais e pelas gentes simples,
cuja presença amiga e dedicada de todos, nesta Igreja Catedral, tanto me
penhora e sensibiliza.
Assim quero, a partir de hoje, continuar na Igreja do Porto. Apenas quem
serve com amor e ternura, que são as linhas do rosto de compaixão e de
misericórdia de Deus, é capaz de cuidar, de proteger, de promover e de
salvar o seu Povo. Por isso, irmãos e irmãs, ajudai-me a ser pastor ao
jeito do coração de Deus e a seguir em todos os passos o exemplo de
Cristo, o belo e bom Pastor.
3. Mensageiro da esperança
O profeta Ezequiel, na primeira leitura da liturgia deste domingo,
lembrava-nos que Deus oferece uma vida nova ao povo que se sentia sem
futuro e sem esperança e coloca esse mesmo povo numa dinâmica que recria
o seu coração e faz renascer a vida.
É esta a certeza confirmada pelo milagre da vida dada a Lázaro,
testemunhada por familiares e amigos, que se abrem à fé em Jesus Cristo,
como narra o texto do Evangelho.
Na segunda leitura de hoje, S. Paulo dizia aos cristãos de Roma: "Se
Cristo está em vós, o Espírito está vivo" (Rm 8, 8-1). É este Espírito
de Deus que ressuscitou Jesus de entre os mortos que nos dá a vida, a
ressurreição e a esperança.
A esperança que quero levar no horizonte dos caminhos da Igreja do
Porto, que nos foram abertos por Jesus Cristo, é a forma que encontro de
traduzir desde o Antuã ao Ave, desde o Mar ao Marão, "as boas notícias
de Deus".
Compreendereis, assim, que faça, também aqui, como fiz sempre e em todo
o lado, das Bem-aventuranças do Reino o padrão do meu viver e o
paradigma do meu ministério. Convoco-vos para sermos mensageiros e
protagonistas das Bem-aventuranças numa linguagem serena, positiva e
confiante, como expressão da voz de toda a Igreja do Porto.
Sabemo-nos filhos abençoados de Deus e discípulos felizes de Jesus, o
Mestre das Bem-aventuranças. Nenhum de nós se imagine filho menor de
Deus ou se considere filho esquecido da Igreja.
Merecem-me uma primeira palavra de comunhão e de gratidão, na alegria do
acolhimento fraterno e da colaboração dedicada que me oferecem os irmãos
Bispos D. Pio Alves, D. António Taipa e D. João Lavrador com quem vou
trabalhar, os Bispos Eméritos que aqui vivem e os Bispos naturais da
nossa Diocese.
Neles e com eles saúdo o senhor Núncio Apostólico, que nos vincula na
comunhão e na unidade ao Santo Padre, o Papa Francisco, de quem recebi
as Cartas Apostólicas. Saúdo o Senhor D. Jorge Ortiga, Arcebispo-Primaz
de Braga e nosso Metropolita, o senhor D. António Marto, Vice-Presidente
da Conferência Episcopal, e saúdo-vos, irmãos Bispos de Portugal, cuja
presença me sensibiliza, ajuda e encoraja.
Saúdo com afecto cordial e comunhão fraterna os representantes de outras
Confissões Cristãs que, com a Igreja do Porto e comigo, quisestes
partilhar a alegria e a missão desta hora.
Neste momento de acrescida e nova missão, mais necessários e preciosos
são os Irmãos. Sempre assim vi os sacerdotes. Assim vamos viver e
trabalhar, caríssimos sacerdotes! Unidos no ministério e congregados na
missão estaremos sempre na vanguarda da alegria do Evangelho e da
certeza da comunhão. Somos percursores e cireneus uns dos outros.
Seremos sempre irmãos. Sejamos sempre, também, discípulos felizes de
Jesus e por Ele enviados em missão para amar servir esta Igreja do
Porto.
Quero caminhar convosco, caros diáconos permanentes, para agradecer a
bênção que constituís para a Igreja e para vos ajudar a aprofundar o
sentido da vossa missão e a valorizar o dom do vosso ministério.
Envio, através de cada um de vós, presbíteros e diáconos, uma saudação
de afecto e de presença a todos os presbíteros e diáconos da nossa
Diocese, sobretudo aos idosos e doentes ou àqueles que vivem momentos de
provação, para que nenhum deles fique privado deste gesto de bênção, que
aqui celebramos, nem se sinta distante desta comunhão de irmãos no
ministério ordenado, que a partir de agora vivenciamos e testemunhamos.
Quero saudar os seminaristas e ver neles sinais de esperança e certezas
de futuro, marcado que estou pela experiência e pela alegria de que, se
rezarmos e trabalharmos, nunca faltarão servidores generosos e felizes
da Messe nesta Igreja do Porto.
Sei que são muitos os(as) consagrados (as) que, na nossa Diocese, vivem,
a radicalidade da entrega a Deus e do serviço ao mundo, na vida
contemplativa ou activa, de que tanto necessitamos. Caminhemos juntos.
Mobilizemo-nos para a missão em frentes e periferias, tão próprias dos
vossos carismas, onde a ousadia profética deve andar a par com o
realismo dos desafios da Igreja, com as necessidades do mundo e com as
urgências do nosso tempo.
Convosco, irmãs e irmãos, crianças, jovens, famílias, idosos e doentes,
somos verdadeiro Povo de Deus. Quero, no belo e sempre actual dizer de
Santo Agostinho, ser bispo para vós e irmão convosco. Aos pastores
pede-se que nunca vos faltem com o estímulo e a alegria do Evangelho de
Cristo e com a sua presença fraterna.
Sei como é imensa esta riqueza da vida laical, nos milhares de
catequistas, colaboradores litúrgicos e agentes socio-caritativos, bem
como de responsáveis por grupos e movimentos presentes e intervenientes
na sociedade. A tudo e a todos quero atender, acompanhar e interligar
cada vez mais, respeitando a índole própria de cada qual, neste trabalho
em rede diocesana, vicarial e paroquial, qual mesa comum com lugar para
todos.
A nossa Diocese do Porto vem de longe com uma bela história de caminho
de leigos esclarecidos, conscientes e responsáveis, inseridos na vida e
na cultura do nosso tempo e com uma reconhecida audácia de missão. Todos
somos necessários e imprescindíveis!
4.No horizonte da missão
Não trago comigo planos prévios ou antecipados programas de acção. Eles
surgirão à medida do sonho de Deus e da sua vontade divina para esta
Igreja do Porto. Estaremos atentos ao que o Espírito de Deus nos
inspirar. Saberemos ajoelhar diante de Deus em oração, para servir de
pé, com passos serenos mas decididos, a Igreja e o mundo, como nos
ensinou D. António Ferreira Gomes, generoso servidor desta Igreja, que
partiu ao encontro de Deus faz agora vinte e cinco anos. Evoco a grata
figura dos meus mais
imediatos predecessores: D. Júlio Tavares Rebimbas e D. Armindo Lopes
Coelho. Vinculo-me no caminho feito ao longo do tempo, generosa e
sabiamente assumido por D. Manuel Clemente, e dedicadamente continuado
por D. Pio Alves, Administrador Apostólico, e por D. António Taipa e D.
João Lavrador, servidores incansáveis da Igreja do Porto, pelos
dedicados Vigários Gerais, pelo Cabido da Catedral, pelo Clero,
Consagrados e Leigos de toda a Diocese.
Na acção pastoral darei lugar determinante aos órgãos eclesiais de
participação e de corresponsabilidade que existem para fomentar a
comunhão geral de quantos, nas paróquias, institutos religiosos e
seculares, associações e movimentos, integram o corpo vivo que é a
Igreja de Cristo, com toda a riqueza carismática e ministerial que o
Espírito cria.
Desejo aprender, dia a dia, a história da Igreja do Porto, sentir os
seus dinamismos, ler e reler o evangelho em chave de missão com o olhar
colocado no horizonte do futuro, onde Deus nos precede. Procurarei
acolher a bênção que constituiu para nós a "Missão 2010", a visita do
Papa Bento XVI à nossa cidade, a vivência do "Ano da Fé" e tantos outros
sinais presentes e impressos no coração disponível de mais de dois
milhões de habitantes da nossa terra.
Temos todos nós características próprias de povo consistente e nortenho,
consolidado por uma longa história de dificuldades e vitórias, em que
preponderou a tenacidade e a criatividade das nossas gentes. A história
e o trabalho deram ao Porto e à Comunidade humana que somos alguns
traços de carácter que, sendo reconhecidos, são também motivo de
esperança forte para o nosso futuro.
Tal se verifica, com admiração e surpresa, na grande quantidade e geral
qualidade das suas instituições cívicas, culturais, académicas,
hospitalares, desportivas e filantrópicas, onde gerações de homens e de
mulheres dão o seu melhor, para que sejam atendidas as mais diversas
necessidades e fomentadas as capacidades de ser e conviver.
O mesmo se revela na grande capacidade de criar, empreender e inovar,
com que em tanto lado se tem conseguido resistir e até superar as
grandes dificuldades que nos atingem nesta crise por demais arrastada.
Muito em especial, por corresponderem com urgência a necessidades que
não podem esperar, salientam-se as iniciativas que vão ao encontro de
problemas imediatos, da alimentação à saúde, da habitação aos recursos
mínimos. Em tudo isto, grande é a alma portuense, solidária e exemplar
até para o todo
nacional!
Nesta bela e nobre história da Diocese do Porto esteve sempre presente
uma plena inserção na Terra que somos e na Sociedade que formamos. Saúdo
as Autoridades presentes aos seus diferentes níveis. O diálogo será
timbre do meu viver e caminho do meu encontro com todos.
O serviço da vida, a procura da bem comum, o valor da dignidade humana,
o respeito pela liberdade e o esforço da coesão social serão, entre
tantos outros, espaços de encontro e caminhos de vida feliz para as
gentes da nossa Terra. Que não haja entre nós nenhum momento em que o
bem comum seja proibido ou não seja procurado!
Sejamos ousados, criativos e decididos sempre mas sobretudo quando e
onde estiverem em causa os frágeis, os pobres e os que sofrem. Esses
devem ser os primeiros porque os pobres não podem esperar! Temos na
história da Igreja do Porto "modelos de caridade" que nos podem guiar
neste caminho.
Sei do valor das Escolas, das Universidades, da Comunicação Social e do
seu imprescindível trabalho ao serviço do bem, da verdade, da cultura e
da educação. O diálogo entre a razão e a fé merece e exige da Igreja
lugar de escuta e tempo dado aos que procuram Deus.
Com tudo o que se lembra, igualmente se agradece a Deus o que a
magnífica Diocese do Porto foi, é e continuará a ser, para a glória de
Deus, como lugar de profecia de uma humanidade viva e de um mundo justo.
Também aqui a fé e o evangelho são a porta que nos abre para um caminho
novo na Igreja e no mundo. Há uma conexão íntima entre a evangelização,
a promoção humana e o desenvolvimento dos povos, de modo a que a
verdadeira esperança cristã gere história, dê sentido à hora que vivemos
e apresse um futuro melhor.
5. Da memória à profecia - a Alegria do Evangelho
Reli a Exortação Apostólica Evangelii Gaudium, com o olhar voltado para
o Porto e com o coração aberto à nova missão que o Papa Francisco me
confia. Este texto histórico da Igreja tem de inspirar também o nosso
caminho na Igreja do Porto.
É dever e urgência da Igreja trilhar caminhos de evangelização, com
novos métodos e acrescido vigor. Desejo que todos sintam que Cristo pode
preencher as nossas vidas com um novo esplendor e uma alegria profunda,
mesmo no meio das provações (167).
Sintamo-nos convocados para a missão. Aprofundemos a dimensão espiritual
do nosso viver. Sejamos evangelizadores com espírito, que rezam e
trabalham, (262), motivados pelo amor que recebemos de Jesus (264).
Assim edificaremos comunidades vivas de fé, de amor e de dinamismo
missionário, mobilizaremos e formaremos adequadamente os agentes da
pastoral e renovaremos as estruturas pastorais desta amada Igreja do
Porto.
Que Nossa Senhora da Assunção, Padroeira da Diocese e desta Catedral,
Mãe de Deus e nossa Mãe, nos ensine, abençoe e proteja, para que
saibamos que o seu exemplo, terno e materno, foi e será sempre nossa
escola de vida, de fé e de missão. Ámen.
Igreja Catedral do Porto, 6 de Abril de 2014
António, bispo do Porto
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